30.06.2025 –

“Instala-se no coração de Cantanhede uma nova agência de franchising imobiliário e serviços financeiros (crédito/seguros). Em si, nada de extraordinário —não fosse o negócio pertencer ao atual Adjunto da Presidente da Câmara Municipal. Mas o mais revelador veio com a inauguração: entre os sorrisos, os brindes e as selfies, lá estavam, com pompa e circunstância, grande parte do executivo municipal e várias chefias da própria autarquia.

A elite institucional a aplaudir, de copo na mão, um negócio privado de alguém que, paradoxalmente, serve (ou deveria servir) a causa pública.
Sim, formalmente é tudo legítimo. Não há crime, não há portaria infringida, não há vício processual. Mas será moralmente aceitável? Ético? Decente?
A política, como a confiança, vive da perceção. E a imagem que se constrói quando os rostos do poder local aplaudem o negócio de um nomeado político é, no mínimo, constrangedora. Que sinal se passa ao cidadão comum? Que a proximidade ao poder é moeda valiosa? Que a linha entre o serviço público e o interesse privado é só uma questão de oportunidade?

Há quem diga que são apenas coincidências, que todos temos direito a empreender. E é verdade. Mas quem está no poder — ou orbitando demasiado perto dele — deve sujeitar-se a um padrão de exigência superior. Não basta ser legal. É preciso parecer íntegro. A mulher de César, como se diz, não basta sê-lo: tem de parecê-lo. E aqui, tudo parece errado.
Não estamos a insinuar crimes. Mas a normalização do inaceitável. O que se celebra nestes eventos não é apenas a abertura de uma empresa — é o conforto com que se esbatem fronteiras. É a facilidade com que se transforma um cargo de confiança política em passaporte para visibilidade e influência comercial. E é também a conivência ativa de quem deveria, antes de mais, proteger a instituição pública de suspeitas e servilismos.
É esta a Cantanhede que queremos? Um concelho onde o poder se fecha sobre si próprio, em círculo, entre favores e celebrações? Um concelho onde se confunde o que é do município com o que é da loja ao lado?
O cargo de Adjunto da Presidente não é um trampolim para a montra. É um lugar de discrição, responsabilidade e serviço. Quando esse lugar se transforma numa antecâmara de oportunidades privadas, a confiança pública estilhaça-se.
Precisamos de mais vergonha. De mais recato. De mais decência. Porque há coisas que não deviam precisar de lei para serem evitadas.
Bastava bom senso. Bastava ética. Bastava decoro.
Mas, pelos vistos, já se festeja de copo erguido o desaparecimento de todos os três”
Sérgio Negrão





