16.06.2026 –

Artigo escrito por Ariana Santos, Enfermeira Especialista em Médico Cirúrgica, Mestre em Oncologia.

“Em Londres, há décadas que uma voz serena avisa nas plataformas do metro: Mind the gap. «Cuidado com o espaço.» Não é apenas uma indicação de segurança. É um convite à vigilância constante perante o que separa: o espaço estreito, mas perigoso, entre a plataforma sólida e a carruagem em movimento. Um lugar onde o pé pode escorregar, onde o desconhecido pode surgir, onde um descuido se transforma em queda.
Os enfermeiros e enfermeiras em Portugal fazem, todos os dias, exatamente isso: mind the gap. São eles que olham para o intervalo — o espaço fluido que existe entre a saúde e a doença, entre o bem-estar e o sofrimento, entre o que o cliente espera e o que a realidade impõe. Identificam o risco antes da queda: o tropeço na medicação, o abismo da solidão no idoso, o fosso entre as palavras do médico e o medo do doente, a distância entre a teoria e a prática dos turnos intermináveis, os desencontros de todos os agentes do cuidado – os clientes, os profissionais, as famílias. Os enfermeiros estabelecem pontes, dinamizam o diálogo, gerem os tempos e os espaços de todos; afinal, orquestram o equilíbrio entre a ciência e a arte da enfermagem.
Enquanto muitos olham apenas para o comboio que chega ou para o destino final, o enfermeiro detém-se no espaço que existe, alcança o aparente vazio e perscruta o que este pode revelar. Observa o que separa. Preenche-o com competência, com humanidade e com uma dedicação que, muitas vezes, lhe cobra um preço elevado. Mas há um outro espaço que Portugal continua a ignorar: o fosso entre o que exigimos aos enfermeiros e o que lhes devolvemos em valorização. Com um rácio ainda abaixo da média europeia (cerca de 7,9 a 8 enfermeiros por mil habitantes), uma carência estimada em mais de 14 mil profissionais no SNS, a profissão vive um desequilíbrio perigoso. A progressão na carreira é lenta e burocrática, as condições de trabalho desgastantes, e os turnos acumulam-se. O resultado é visível: mais de 50% dos enfermeiros relatam sintomas de burnout, 74% percepcionam negativamente a sua saúde mental, e muitos optam pela emigração ou pela passagem ao setor privado em busca de melhor remuneração e conciliação com a vida pessoal.
Ser enfermeiro em Portugal é, hoje, estar constantemente a mind the gap para os outros, enquanto o próprio sistema deixa que o profissional caia nesse mesmo espaço vazio. Como pode alguém continuar a identificar riscos, a prevenir quedas e a construir pontes para os doentes, quando ninguém cuida do espaço que o separa do esgotamento, da desmotivação ou da exaustão emocional? Cuidar dos enfermeiros não é um luxo nem um favor. É uma necessidade imperiosa para a sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde. É também um desiderato de cada um de nós, enfermeiro, ser humano. Tomar consciência deste espaço também dentro de nós e trabalhá-lo. Dos que decidem, impõe-se a valorização da carreira, com salários dignos, progressão justa, dedicação exclusiva e condições que permitam a conciliação entre vida profissional e pessoal, não é apenas uma questão de justiça social. É uma medida de segurança pública. Porque quando o enfermeiro tropeça no seu próprio espaço — no burnout, na desvalorização ou na falta de perspetivas —, é toda a ponte que sustenta o cuidado à população que enfraquece.
Mind the gap.
Cuidado com o espaço.
Que este aviso ecoe não só nas plataformas do metro de Londres, mas também nos corredores dos hospitais e centros de saúde portugueses. Os enfermeiros já cumprem a sua parte: olham para o intervalo, preenchem-no com a vida, não a vida cega, mas perguntando-se, a cada momento, tal como nos diz Marie-Françoise Collière, o que se permite viver. Agora é tempo de a sociedade e o poder político olharem para o espaço que os separa de uma profissão dignificada — e o preencherem com o respeito, o reconhecimento e o apoio que merecem.
Porque só cuidando de quem cuida poderemos garantir que, no futuro, ninguém caia no fosso entre o que prometemos em saúde e o que efetivamente entregamos.”

Ariana Santos, Enfermeira Especialista em Médico Cirúrgica, Mestre em Oncologia.





