“O Bicho ou demasiado Porto para o futebol moderno” – Luís Miguel Pato

18.05.2026 –

“Existem jogadores que passam pelos clubes e depois existem aqueles que ficam gravados nas paredes, nas bancadas e na memória coletiva de toda uma instituição. Jorge Costa – o “Bicho” – pertence a essa estirpe.
Agora que termina o campeonato, recordo que Jorge Costa foi muito mais do que um defesa-central. Encarnou uma missão, uma identidade. No fundo, viveu uma forma de estar na vida: representava aquela imagem clássica do FC Porto competitivo, duro e emocional. Quem não se lembra de outros agentes dessa forma de estar como, por exemplo: Paulinho, Jaime Magalhães, André, Semedo, Fernando Gomes (Bibota), Rodolfo etc…  
Ele não jogava apenas futebol; para ele, cada partida, jogada fora ou embalada nas Antas pelo trompete de António Lourenço ou mais tarde, no Dragão, ao som dos cânticos dos Super Dragões, era uma batalha. Elegância não era necessariamente a sua imagem de marca, mas a sua eficácia, liderança e a sua entrega eram inquestionáveis. Cada centímetro era conquistado com sangue, suor e lágrimas…
Tal como João Pinto, outro eterno “número 2”, como capitão, foi símbolo de uma geração de vencedores que fizeram de um “clube de bairro”, como alguém, dos centros do poder, uma vez disse, uma potência mundial. Erguer títulos nacionais e internacionais foi apenas parte do seu legado; mas mais do que isso, personificou a mentalidade portista, honrando a história de um clube que, mais do que se representar apenas a si próprio, transporta consigo a cultura de uma cidade e o orgulho de uma região que sempre encontrou no clube uma extensão da sua própria identidade. Jorge Costa pertencia a esse Porto “grave e sério” composto por uma “luz bela e sombria”, tão bem cantado por Rui Veloso…
Primeiro era adepto, e só depois foi jogador. E foi precisamente dessa dictomia – entre adepto apaixonado e o capitão implacável – que nasceu a sua ligação à massa associativa e aos adeptos. É um sentimento de pertença inabalável. Mesmo com todas as mudanças que o futebol conheceu ao longo dos anos, o “Bicho” continuará a ser recordado como exemplo de entrega, compromisso e daquilo que significa “ser Porto”. Porque, neste clube, ser capitão nunca se resumiu a usar uma braçadeira. Significa ser fiel depositário da história, da identidade e da mística portista. E poucos o fizeram com tanta intensidade e devoção como Jorge Costa.
No fundo, Jorge Costa representava algo maior do que o próprio futebol. Representava uma cidade, uma forma de estar e um sentimento coletivo que atravessa gerações. Tal como a cidade, não é só jogar. É um sentimento; é poesia em movimento, como disse Agustina… 

Obrigado capitão!”

Luís Miguel Pato (portista até morrer)
Professor – Ensino Superior 
Área da Comunicação