22.11.2025 –
“Entre o grotesco e o genial, Manuel João Vieira volta às presidenciais de 2026 para lembrar ao país que, por vezes, é na caricatura que a política mais se revela e é no absurdo que mais dói a verdade.

Imaginem: estamos em 2026 e o bar até está sossegado. O gato dorme enroscado numa velha manta, perto da lareira, construída com tijolo burro e as brasas crepitam.. É meia-noite. Lá fora está a chover e, de repente, alguém, com uma faixa a atravessar-lhe o peito, com uns dizeres imperceptíveis, abre a porta, com força, e diz, meio a rir, meio a brincar e sem paciência para boas maneiras: – “Quero uma jarra de vinho, tremoços e coiratos! Já agora, alguém viu Maria Lurdes?! Estou cá com uma larica!” Eis o “Candidato Vieira” – uma intenção já anunciada nas candidaturas presidenciais de 2011 e 2016… mas que acabou por não chegar às urnas por falta de assinaturas. Por isso, mais do que uma intenção séria, pode dizer-se que se trata de uma performance artística; uma mensagem, uma crítica.

E agora nas presidenciais de 2026, cá está ele outra vez e em força! Embora, ainda seja pré-candidato. E hoje repete o que sempre disse: “só desisto se for eleito”. É que, digo eu, os Ena Pá 2000 e os Irmãos Catita precisam do seu músico, agitador cultural e líder espiritual e literal. Com ele o palco político passa a ser a metáfora do ridículo em que se tornou. No fundo, esta intenção, do cidadão Manuel João Vieira, é um chapadão ilusório na cara dos políticos e do eleitorado que segue alguns destes verdadeiros flautistas.
Com ele vai ser: vinho canalizado em todas as casas, Ferraris para todos os portugueses, estacionamento gratuito, uma cidade chamada Vieirapólis, uma prostituta em cada esquina, pigmentação igual para todos etc. Caramba, só faltou o joelhódromo… Ao ler isto podemos até dizer que são ridículas. Mas, não será esse o caminho mais fácil? Digo isto, porque é no seio deste “programa” que está o anti-herói e aí que cada um de nós deve ver nos políticos, ditos “sérios”, que há quem prometa este mundo e o próximo sem nunca admitir que estava a exagerar… Quem não se lembra, por exemplo, do aeroporto para Coimbra?! No caso de Manuel João Vieira o exagero das suas propostas obriga o público a perguntar-se onde é que começa a demagogia e onde é que acaba o disparate.
Com uma carreira construída sobre a mediatização do grotesco e do absurdo, a ironia é-lhe uma constante. Tudo é cenário, tudo é exagero e a piada sustenta uma forte crítica social. E, claro, as suas candidaturas às presidenciais não fogem a esta regra. Estas propostas impossíveis refletem a deformação que resulta de uma boa parte do discurso político. Ou seja, esta candidatura – que no fundo é uma performance – tem como missão desmontar a solenidade, quase, aparentemente, épica, da retórica política dominante. Leva-a ao nível do absurdo; do grotesco.
Ao oferecer desconforto, Vieira, coloca o eleitorado a pensar. É, por isso, no fundo: “uma desordem do pensamento” para um país resignado e de brandos costumes que de vez em quando mostra indignação. A última vez que o fez mesmo a sério foi há 51 anos! É, portanto, um teste à nossa capacidade de distinguir entre a verdade e a utopia. No fundo, creio que Manuel João Vieira, sobe a um palco quase kafkiano, erguido por si, onde só quer mostrar o vazio de algum discurso político e que a política também é teatro. Para ele, o verdadeiro perigo está em não reconhecer esta dimensão. Por isso, através desta performance, Vieira está a prestar um verdadeiro serviço público.

Luís Miguel Pato
Profissional em Comunicação e Professor Universitário”




