16.02.2026 –
“A calamidade que se abateu sobre a Coimbra e a sua região não é apenas mais um episódio extremo no calendário das adversidades naturais. É um alerta sério — humano e estrutural. Fala de casas invadidas, estradas cortadas, campos submersos e empresas paralisadas. Mas, acima de tudo, fala de vidas que poderão estar em causa. E quando vidas estão em risco, já não discutimos apenas meteorologia ou fatalidade: falamos de responsabilidade coletiva e de visão estratégica.

Em momentos como este, impõe-se uma reflexão clara: não é a jusante que se resolvem os problemas, é a montante.
Durante anos, acumularam-se diagnósticos, relatórios técnicos, planos estratégicos e alertas científicos. Sabemos que os fenómenos climáticos extremos são cada vez mais frequentes e intensos. Sabemos que a impermeabilização dos solos, a ocupação desordenada das margens ribeirinhas, a insuficiente manutenção das linhas de água e a gestão inadequada da floresta aumentam o risco. Sabemos, também, que o ordenamento do território nem sempre acompanhou o conhecimento técnico disponível.
Então, porque continuamos a agir sobretudo depois da tragédia e não antes dela?
A resposta exige coragem política, compromisso institucional e responsabilidade de cidadania. Resolver a montante significa investir seriamente na prevenção. Significa rever planos diretores municipais à luz da nova realidade climática. Significa garantir a limpeza e manutenção regulares das linhas de água. Significa apostar na reflorestação com espécies adequadas, na criação de zonas de retenção natural e em infraestruturas resilientes. Significa planear o território com visão de longo prazo, mesmo quando isso implica decisões difíceis e impopulares.
Mas resolver a montante é também uma questão cultural. É educar para o risco. É integrar a literacia ambiental nas escolas. É envolver as comunidades locais na proteção do seu território. É deixar de normalizar construções em zonas claramente vulneráveis. É compreender que cada pequena decisão individual pode ter impacto coletivo.
Contudo, se é verdade que há muito por fazer na prevenção, também é verdade que, quando a calamidade chega, revela o melhor de nós — mormente na solidariedade comunitária.
É justo e necessário reconhecer o trabalho de todas as forças envolvidas nesta resposta. Aos municípios atingidos, pela capacidade de coordenação e proximidade. À Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, pelo planeamento e prontidão. Às forças de segurança, às forças militares e aos bombeiros — profissionais e voluntários — pela coragem e entrega incondicional. Aos voluntários anónimos que ajudaram vizinhos, amigos e desconhecidos. E, mormente, à população em geral, que acatou as orientações com responsabilidade e civismo.

Esse espírito coletivo faz a diferença. Salva vidas, reduz danos e evita o caos.
Mas a solidariedade, por mais nobre que seja, não substitui a estratégia. Não podemos continuar a depender apenas da bravura dos que estão na linha da frente. É injusto para eles e é arriscado para todos nós.
O que está em cima da mesa não é apenas a recuperação do que foi perdido. É a reconstrução com inteligência e a capacidade de aproveitar esta crise para reformular políticas públicas. É canalizar fundos nacionais e europeus para intervenções estruturais, e não para remendos temporários. É criar mecanismos de fiscalização eficazes e garantir que os investimentos feitos hoje reduzem o risco amanhã.
A Região de Coimbra tem capital humano, conhecimento científico — basta olhar para a Universidade de Coimbra e para os seus centros de investigação — e capacidade técnica para liderar uma nova abordagem à gestão do território. Falta transformar conhecimento em ação sistemática.
Não se trata de encontrar culpados imediatos. Trata-se de assumir responsabilidades partilhadas. O poder local, o poder central, as entidades técnicas, os proprietários, as empresas e cada cidadão têm um papel a desempenhar. A natureza não é inimiga; reage às intervenções que fazemos sobre ela. Ignorar essa realidade é perpetuar o ciclo de emergência, choque, reconstrução e esquecimento.
A verdadeira homenagem às vidas que poderão estar em causa não é apenas a ajuda no momento crítico — é garantir que, no futuro, o risco seja menor.
Que esta calamidade não seja apenas mais uma página dolorosa na história da região. Que seja um ponto de viragem. Que aprendamos, finalmente, que o futuro se constrói a montante.
Porque prevenir não é gastar: é proteger. E proteger vidas é a prioridade maior de qualquer sociedade digna desse nome.”
Paulo Seco
Deputado na Assembleia da República



