“Na terra onde o signo vota antes do eleitor” – Luís Miguel Pato

13.10.2025 –

“Quando o símbolo se torna mais forte do que a ideia, o debate político transforma-se numa guerra de perceções.”
por Luís Miguel Pato

“Falar de política hoje deixou de ser, em parte, um confronto de ideias para se tornar, cada vez mais, uma disputa de signos — sejam eles palavras, imagens, gestos ou símbolos partidários. Em muitos casos, esses signos valem mais do que os próprios programas de governação. O eleitor, antes de optar por um projeto ou pela pessoa que se propõe a concretizá-lo, vota no símbolo e na sigla em que se reconhece. Por vezes, nem se trata de uma ação individual, mas do resultado de uma ação comunitária. Basta observar os bastiões políticos que existem por esse Portugal fora — e que, ocasionalmente, também são depostos nas urnas (vejam-se Viseu, Lousã, entre outros). Só assim se pode compreender a lógica e a persistência dessa ecologia política.

Para entender este fenómeno, é necessário abordá-lo pela lente da semiótica, a ciência que estuda os signos — isto é, a forma como criamos, transmitimos e interpretamos significados em tudo o que comunica. Ferdinand de Saussure demonstrou que não há valor fixo associado às palavras: elas são construções sociais. Charles Sanders Peirce propôs que o sentido depende sempre de quem interpreta. Roland Barthes, por seu lado, mostrou que a imagem nunca é inocente: ela comunica ideias que se materializam em intenções. Assim, pode ver-se que as campanhas políticas não são apenas manifestações comunicacionais — são mitologias contemporâneas que transformam ideias particulares em valores universais. Veja-se o exemplo do lema “Deus, Pátria e Família”, reminiscente de tempos em que o signo era usado para revestir a ideologia de moral. Ou dos tempos que ainda creio serem da outra senhora…

Levando essa abordagem para o campo da imagem, Susan Sontag lembra-nos, por exemplo, que as fotografias possuem um poder simbólico: não apenas representam o mundo, mas moldam-no. Cada imagem carrega uma posse simbólica e condiciona a forma como sentimos e pensamos a realidade.

À luz destes postulados, pode ver-se que cada partido dá um tom próprio às palavras que escolhe. Há uma intencionalidade polissémica que visa sobrepor-se à razão — ou mesmo à crítica racional que deveria sustentar a escolha entre o partido A ou B. Hoje, as campanhas explicam menos e procuram, sobretudo, transmitir sentidos através das suas ações. Vejam-se, por exemplo, as estratégias populistas que evitam o confronto de ideias, preferindo o confronto emocional e simbólico.

O resultado, para mim, é claro: num contexto em que a esfera pública valoriza mais parecer do que propor, o signo tornou-se mais importante do que o conteúdo. O contraditório, que nasce do debate de ideias, cedeu espaço à lógica da identificação. Vota-se, cada vez mais, por afinidade simbólica e menos por convicção racional. Por isso, quando me dizem que, nas autárquicas, se vota “na pessoa”, confesso ter dificuldade em acreditar. Penso que se vota na pessoa apenas quando ela está associada a um determinado símbolo — leia-se, partido.

Estes tempos, fundados em bases arenosas (ou líquidas, como diria Bauman), revelam uma política dominada pela estética da identificação, em detrimento do debate racional e sustentado — um dos pilares de qualquer democracia funcional. Vivemos, talvez, sob uma sombra projetada por escolhas orientadas mais pela emoção simbólica do que pela razão crítica.

São, afinal, os tempos em que o signo vota antes do eleitor.”

Luís Miguel Pato, Profissional de Comunicação e Professor Universitário