Há projetos que nos mudam por dentro. A “Saúde na Esquina” é um deles. (Enfª Manuela Sanches)

21.08.2025 –

“Todas as sextas-feiras, uma equipa multidisciplinar e inteiramente voluntária faz-se à estrada com a carrinha equipada da Saúde em Português, rumo a uma missão que é tanto profissional quanto profundamente humana. Em semanas alternadas, percorremos a estrada ou circulamos por pontos-chave da cidade. E, em cada esquina, reencontramos rostos — uns já familiares, outros que ainda estamos a tentar conquistar — sempre com o mesmo objetivo: cuidar.

Sou enfermeira voluntária neste projeto desde 2016 e aqui, mais do que aplicar técnicas ou seguir protocolos, a minha profissão ganha alma. Escutamos, acolhemos e respeitamos histórias de vida que quase sempre passam à margem dos olhares comuns. Mulheres que carregam passados difíceis, muitas vezes invisibilizadas e privadas do acesso à saúde com dignidade e respeito. Atuamos onde os cuidados formais raramente chegam — nas ruas, junto à carrinha, na beira da estrada, e é precisamente por isso que o impacto é tão transformador para ambos os lados da história.

 

A nossa presença é discreta, mas carrega um peso imenso. Levamos sorrisos, atenção genuína e escuta ativa. Oferecemos cuidados concretos: rastreios da saúde da mulher, testes rápidos de HIV, distribuição de métodos contracetivos de barreira, citologias, aconselhamento e apoio emocional. Falamos sobre saúde sexual e reprodutiva, planeamento familiar, direitos e deveres.

Mas, acima de tudo, oferecemos tempo e presença — e, muitas vezes, para estas mulheres, é isto que mais faz a diferença.

O mais poderoso neste trabalho é a construção de confiança. No início, há desconfiança — compreensível, foi construída ao longo de vidas marcadas por julgamentos e abandono. Mas, com o tempo, os muros caem. Começam a reconhecer-nos, a partilhar medos, dúvidas, desejos e até sonhos. Quando nos atrasamos ou há imprevistos, expressam-se que sentem a nossa ausência. Esse vínculo, silencioso, mas firme, é das maiores conquistas deste projeto.

Ser voluntária é ser enfermeira de corpo inteiro. Improvisamos espaços de consulta na carrinha, adaptamos a rua como sala de espera, ajustamos a linguagem e o tempo à realidade de quem temos à frente. Mesmo nos dias difíceis, há sempre espaço para empatia, respeito e cuidado genuíno. Porque, ali, naquela esquina, somos muitas vezes a única referência de saúde acessível,  humana e livre de julgamentos.

Nada disto seria possível sem a dedicação de uma equipa que combina saberes e afetos — médicas, enfermeiras, psicólogas, técnicas sociais, motoristas, e tantos outros voluntários — todos movidos por um compromisso comum: cuidar com dignidade. Trabalhar em conjunto, com respeito pelas diferentes funções, é o que permite transformar obstáculos em soluções. E são esses laços dentro da equipa que também sustentam o nosso ânimo, semana após semana.

Claro que nem sempre é fácil. Há dias em que enfrentamos o frio, a chuva, o desânimo delas ou a resistência do próprio sistema. Foi preciso muitas vezes, reorganizar rotas e adaptar planos, outras vezes, o desafio está na dureza de certas histórias, que nos ficam no corpo mesmo depois da carrinha seguir. Mas voltamos sempre porque elas também voltam.

Este projeto é também um lembrete constante de que a prevenção é o melhor tratamento. Um preservativo pode evitar uma infeção. Um teste rápido pode salvar uma vida. Uma conversa pode mudar uma perceção. Pequenos gestos que, somados, têm um impacto enorme. Não mudamos o mundo inteiro — mas todas as semanas, mudamos o mundo de alguém. E isso já é extraordinário”.

Texto da Enfermeira Manuela Sanches 

 Secção Regional do Centro da Ordem dos Enfermeiros