“Abril, Novembro e o Futuro que Ainda Falta Construir” (Carlos Sérgio Negrão)

25.11.2025 –

“Uma reflexão necessária no 25 de Novembro, escrita por alguém que nasceu depois de Abril e depois de Novembro

À medida que nos aproximamos de mais um 25 de Novembro, regressa a coreografia previsível que o país insiste em repetir: discursos inflamados, memórias disputadas e a eterna tentativa de transformar duas datas estruturantes da nossa Democracia em bandeiras de trincheira. De um lado, quem ergue Abril como território exclusivo. Do outro, quem reivindica Novembro como momento fundador por excelência. E, pelo meio, a maioria dos cidadãos assiste a um debate que pouco acrescenta e muito divide.

O que raramente se diz e devia ser dito com toda a clareza, é simples: o 25 de Abril e o 25 de Novembro não competem entre si. Um não existe sem o outro. Um abriu portas, o outro garantiu que não se fechariam. E ambos, com as suas tensões e imperfeições, foram determinantes para que Portugal encontrasse um caminho democrático estável.

Falo disto com a distância de quem nasceu depois de 74 e depois de 75. Não vivi o medo, nem vivi o entusiasmo. Não trago as paixões nem os ressentimentos desse tempo. Mas herdei as consequências, boas e más, desses dois momentos. E é essa herança, enquanto cidadão adulto e consciente, que me obriga a olhar para estas datas sem romantismo, sem saudosismo e sem apropriações convenientes.

O 25 de Abril devolveu ao país a liberdade que durante décadas lhe tinha sido negada. Foi o sopro que quebrou o silêncio e que abriu horizontes. Mas a liberdade, quando nasce de rompante, vem sempre carregada de incerteza e turbulência. O 25 de Novembro, por seu lado, foi o momento de clarificação que impediu essa liberdade juvenil de descarrilar. A democracia consolidou-se porque encontrou equilíbrio, não porque encontrou unanimidade.

Hoje, enquanto sociedade, corremos um risco enorme: transformar estes dias em munição política. Usar a História como ferramenta de conveniência, em vez de a respeitar como referência comum. E isso enfraquece-nos. Divide-nos. Desvia-nos do essencial.

O essencial é isto: Abril deu-nos voz. Novembro deu-nos equilíbrio. A Democracia só existe porque ambos existiram.

Num tempo em que as democracias no mundo vivem ameaças internas e externas, quando se alimentam populismos fáceis e discursos que prometem atalhos, talvez fosse mais sensato abandonar a guerrilha das interpretações e assumir, de uma vez por todas, que a História nos pede maturidade. Que a liberdade não é garantida. Que a estabilidade não é um dado adquirido. Que temos a obrigação de honrar o passado defendendo — e renovando — o futuro democrático que herdámos.

E aqui, no contexto regional, essa reflexão é ainda mais relevante. Porque as nossas terras, como Cantanhede, como Mira, como tantas outras, enfrentam hoje desafios profundos: desenvolvimento económico, atração de jovens, qualificação, coesão territorial, inovação, sustentabilidade. E nenhum destes desafios se resolve com debates ideológicos presos ao século passado. Resolve-se com visão, com compromisso e com coragem política.

A lição de Abril e Novembro pode servir-nos aqui também: liberdade para romper com o que está estagnado,
estabilidade para construir o que faz falta.

Portugal não precisa que idolatre os seus marcos históricos. Precisa que os compreenda. Precisa que aprenda com eles. E, acima de tudo, precisa que tenha a coragem de escrever os próximos.

Para quem, como eu, nasceu depois de tudo isto, há uma responsabilidade que não podemos delegar: não somos apenas herdeiros do passado, somos autores do futuro. E o futuro democrático da nossa região será aquilo que tivermos a capacidade, a ambição e a ousadia de construir.

Se Abril foi o começo e Novembro foi a maturação, então falta-nos a etapa mais difícil: o compromisso diário de continuar a merecer ambos.”

CARLOS SÉRGIO NEGRÃO