19.07.2025 –
“Coimbra, Portugal – Numa sociedade que envelhece a um ritmo galopante, com o distrito de Coimbra a apresentar um dos mais elevados índices de envelhecimento do país, a Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra está a redefinir o paradigma do cuidado, demonstrando que a inovação mais eficaz pode ser, simplesmente, a proximidade.
Através da implementação e consolidação de três unidades de vanguarda – a Unidade de Hospitalização Domiciliária (UHD), a Unidade de Monitorização Remota (UMR) e a Unidade de Tratamento de Feridas Complexas (UTFC)– a ULS Coimbra não está apenas a responder a uma necessidade demográfica premente; está a construir um futuro mais humano e sustentável para os seus utentes, em especial os mais velhos e frágeis.
O envelhecimento populacional é uma realidade incontornável na nossa região. Dados recentes do Perfil de Saúde da Unidade Local de Saúde de Coimbra são avassaladores, com o índice de envelhecimento a atingir os 254 ou seja, existem 254 idosos por cada 100 jovens, sendo este valor superior à média nacional há vários anos, com tendência de agravamento.
Este é um número que não só espelha uma profunda alteração da pirâmide etária, como também impõe uma reflexão séria sobre os modelos de prestação de cuidados de saúde. A tradicional centralização de cuidados no hospital, com os seus riscos inerentes de infeção, a despersonalização do tratamento e o afastamento do doente do seu ambiente familiar, revela-se cada vez mais inadequada e insustentável.
É neste cenário que a aposta da ULS Coimbra em cuidados de proximidade se revela não apenas acertada, mas visionária. A Unidade de Hospitalização Domiciliária (UHD) é, porventura, o exemplo mais emblemático desta nova filosofia. Permitir que o doente recupere no conforto e na segurança do seu lar, rodeado pela família, mas com o acompanhamento clínico contínuo e diferenciado de uma equipa hospitalar, é uma humanização dos cuidados com um impacto profundo.
Os números da UHD em 2025 demonstram a necessidade e a utilidade deste tipo de prestação de cuidados. Aumentou em 50% as camas disponíveis relativamente a 2024, o número de utentes com alta cresceu mais de 75% relativamente ao período homólogo e, de acordo com o site de Benchmarking da ACSS, a UHD da ULS Coimbra, em abril deste ano, é uma das unidades deste tipo do país com maior número de visitas realizadas, o que demonstra bem a sua pertinência e a mais-valia na redução do risco de infeções hospitalares, na melhoria da satisfação do utente, na otimização da gestão de camas hospitalares e principalmente na qualidade de vida.
O futuro passará a curto prazo pela criação do Centro de Responsabilidade Integrada (CRI) e a abertura de novos polos, replicando a UHD situada no Hospital Geral por outras localizações descentralizadas, promovendo a equidade no acesso a esta tipologia de cuidados.
Paralelamente, mas em alguns aspetos, complementar, a Unidade de Monitorização Remota (UMR) representa a aplicação inteligente da tecnologia ao serviço da saúde. A monitorização remota de doentes em percursos clínicos integrados (PCI) (diabetes e doença pulmonar obstrutiva crónica – DPOC, são exemplos) tem sido um desafio, mas os resultados bastantes encorajadores, com um número crescente de utentes neste projeto, com benefícios evidentes para a sua qualidade de vida.
A equipa de enfermagem consegue intervir proactivamente, ajustando medicação e prevenindo descompensações que, de outra forma, resultariam em idas à urgência ou internamentos. Esta vigilância à distância é a sentinela discreta que garante a segurança do doente crónico, promovendo a sua autonomia e literacia em saúde, ao mesmo tempo que alivia a pressão sobre os serviços de urgência.
Está previsto o alargamento desta unidade a mais percursos clínicos integrados, assim como a instalação da Unidade Central de Monitorização Remota em instalações renovadas do Hospital Geral dos Covões, numa aposta muito significativa desta tipologia de cuidados, mais uma vez em proximidade e promovendo a qualidade de vida dos utentes.
A terceira peça deste puzzle de inovação e proximidade é a Unidade de Tratamento de Feridas Complexas (UTFC). As feridas que não cicatrizam são um problema de saúde pública, com um impacto devastador na qualidade de vida, levando muitas vezes ao isolamento social. A criação de uma unidade especializada, que funciona de forma multidisciplinar, onde os enfermeiros especializados assumem um papel primordial, e em articulação com os cuidados de saúde primários, é uma resposta de enorme valor.
Esta unidade nasceu em 2023 no Hospital do Arcebispo João Crisóstomo, em Cantanhede. Os resultados falam por si: uma taxa de sucesso de quase 70% na sua fase inicial, devolvendo, como refere a equipa, “a vida às pessoas”. Um dos casos de sucesso, o de um utente com feridas extensas que o impediam de se sentar à mesa com a família e que, após um ano de tratamento, recuperou essa normalidade, ilustra de forma pungente o que estes cuidados representam. Não se trata apenas de curar uma ferida no corpo; trata-se de sarar uma ferida na vida. Até feridas da guerra colonial, que persistiam, foram curadas.
Com a integração do HAJC na ULS Coimbra, nasceu a oportunidade do desenvolvimento desta unidade, levando este tipo de tratamento a mais pessoas e em maior proximidade. Em 2025 triplicámos as unidades existentes, contando agora com unidades em Cantanhede, Coimbra e Arganil. Outras virão num futuro próximo, na procura de equidade no acesso para quem precisa.
A implementação e o sucesso destas três unidades na ULS Coimbra (UHD, UMR e UTFC) são a prova de que é possível oferecer um Serviço Nacional de Saúde (SNS) mais eficiente, mais humano e mais próximo das reais necessidades das pessoas. Num território envelhecido, a resposta não pode ser a construção de mais paredes de hospitais, mas sim a edificação de pontes sólidas entre as equipas de saúde e a comunidade.
A ULS Coimbra está a liderar pelo exemplo, demonstrando que o futuro dos cuidados de saúde, em especial para a população mais idosa, passa por levar o cuidado ao encontro do doente, e não o contrário. É uma revolução silenciosa, feita de visitas domiciliárias, de alertas num ecrã, de pensos aplicados com saber e de uma presença que conforta e cura. É, na sua essência, o regresso a um cuidado mais próximo, mais atento e, por isso mesmo, mais eficaz.
Um modelo que merece ser aplaudido, replicado e fortalecido, como garantia de um envelhecimento com dignidade e qualidade de vida para todos.”

Artur Carvalhinho
(Enfermeiro Gestor da UHD, UMR e UTFC da ULS Coimbra)



