Os hotéis de Lisboa onde os hóspedes dormem sobre a História

19.08.2026 – 

Áurea Museum. Ferraria XVI. Memmo Alfama. Solar do Castelo. Locke de Santa Joana. Convent Square.

Seis hotéis de Lisboa. Seis edifícios, ou conjuntos arquitectónicos, onde a experiência de quem chega para dormir pode transformar-se, quase sem dar por isso, numa viagem por séculos de História. Porque há hotéis onde o luxo se mede pelo número de estrelas, outros pela vista sobre o Tejo, outros ainda pelo tamanho da piscina. E depois existem aqueles onde é possível encontrar Roma, a Lisboa islâmica, a Idade Média, antigos conventos, palácios, estruturas pombalinas e vestígios arqueológicos que estavam escondidos muito antes de existir a ideia moderna de hotel.

Para um historiador, esta Lisboa é particularmente fascinante. Não estamos perante uma exposição montada artificialmente para reproduzir o passado, mas perante edifícios onde diferentes épocas sobreviveram à passagem do tempo e foram, em alguns casos, integradas na arquitectura contemporânea. O hóspede pode chegar com uma mala de viagem e entrar, sem o saber, num lugar onde outros habitantes de Lisboa deixaram as suas marcas há centenas ou milhares de anos.

O caso mais extraordinário será talvez o Áurea Museum, no Cais de Santarém. Durante as obras de transformação dos antigos Armazéns Sommer e do Palácio Coculim foram realizadas escavações arqueológicas que revelaram uma verdadeira sucessão de Lisboas. Encontraram-se vestígios do Neolítico Antigo, incluindo um enterramento humano e materiais com vários milhares de anos, elementos relacionados com a ocupação da Idade do Ferro, vestígios romanos, estruturas da Antiguidade Tardia, ocupação islâmica, medieval, moderna e contemporânea. Surgiu ainda uma domus romana com pavimento em mosaico, além de estruturas como uma rua, um fontanário e um poço-cisterna. Uma estela funerária com inscrição em fenício acrescentou outra camada a esta extraordinária história.

É difícil imaginar melhor exemplo daquilo que significa viver sobre a História. No Áurea Museum, o passado não está apenas representado numa placa explicativa. Está fisicamente presente no edifício e foi integrado no próprio projecto hoteleiro. O hotel chegou mesmo a criar visitas históricas e percursos pelos seus vestígios arqueológicos, assumindo que aquilo que foi encontrado debaixo do edifício constitui parte essencial da identidade do lugar.

Pouco distante dali, na Rua dos Sapateiros, encontramos o Ferraria XVI FLH Hotels, outro caso em que a arqueologia revelou uma Lisboa que normalmente permanece invisível. O próprio nome do hotel denuncia uma das histórias do local: as escavações permitiram identificar vestígios de uma antiga ferraria do século XVI, mas também elementos de épocas anteriores, nomeadamente ocupações romana e islâmica. O Museu de Lisboa incluiu precisamente este hotel no seu programa de arqueologia, sob a designação sugestiva de “Uma Ferraria do séc. XVI”.

Aqui encontramos uma característica que me parece essencial para compreender Lisboa: a cidade não é uma sucessão de cidades que desaparecem umas para dar lugar às seguintes. É antes uma cidade construída por acumulação. Roma não desapareceu completamente quando chegou a Idade Média; a Lisboa islâmica não desapareceu por completo quando a cidade passou para o domínio cristão; e a Lisboa anterior ao terramoto não desapareceu totalmente quando o Marquês de Pombal mandou reconstruir a Baixa. As pedras, os muros, os pavimentos e os objectos permaneceram, muitas vezes escondidos, à espera de que uma obra contemporânea os voltasse a revelar.

Memmo Alfama é outro exemplo dessa sobreposição de tempos. Durante a recuperação do edifício foram identificados vestígios arqueológicos romanos, medievais e de épocas posteriores, alguns dos quais permanecem actualmente integrados no hotel. Entre eles encontra-se uma base de coluna romana, artefactos arqueológicos e restos das antigas muralhas defensivas associadas ao período islâmico de Lisboa, quando a cidade era conhecida como al-Ushbuna. O próprio hotel transformou esses elementos numa espécie de percurso histórico pelas suas paredes, permitindo ao visitante descobrir as várias camadas de Alfama sem abandonar o edifício.

Subindo a colina, chegamos ao Solar do Castelo, talvez um dos hotéis de Lisboa onde a expressão “dormir sobre a História” ganha um significado mais literal. O edifício encontra-se dentro das muralhas do Castelo de São Jorge e foi construído no século XVIII no local das antigas cozinhas dos Paços da Alcáçova. A antiga construção, conhecida como Palacete das Cozinhas, conserva elementos medievais, entre os quais uma cisterna que terá pertencido às dependências do antigo Paço. Durante a recuperação foram ainda encontrados objectos arqueológicos, alguns deles datados da Idade do Ferro, actualmente apresentados num pequeno núcleo museológico do hotel.

Há aqui uma extraordinária continuidade histórica. O hóspede que hoje atravessa as portas do Solar do Castelo está dentro das muralhas de uma fortificação que atravessou a conquista cristã, a transformação de Lisboa em capital régia e séculos de história portuguesa. Está num edifício setecentista, mas caminha sobre vestígios muito anteriores. E talvez seja precisamente esta sobreposição que melhor define Lisboa: numa mesma sala podem encontrar-se o presente, o século XVIII, a Idade Média e, logo abaixo, outras épocas que já tinham desaparecido da memória colectiva.

Mais abaixo, junto à Avenida da Liberdade, encontramos o Locke de Santa Joana, instalado no antigo Convento de Santa Joana. Aqui a História assume sobretudo a forma de arquitectura conventual e de vestígios arqueológicos associados às sucessivas ocupações do espaço. A transformação do antigo convento numa unidade hoteleira obrigou à recuperação e leitura de estruturas que testemunham a longa existência daquele lugar. O interessante não é apenas dormir num edifício que teve uma função religiosa durante séculos, mas perceber como um espaço concebido para uma comunidade conventual pode adquirir uma nova função sem que a sua memória tenha necessariamente de ser apagada.

E finalmente chegamos ao Convent Square Lisbon, junto ao Rossio, instalado no antigo Convento de São Domingos. Neste caso, a própria palavra “hotel” parece quase uma designação insuficiente. Estamos perante um espaço cuja história remonta ao século XIII e que atravessou séculos de vida religiosa, incêndios, reconstruções e o terramoto de 1755. O antigo convento foi integrado no projecto contemporâneo e o seu claustro permanece como uma das marcas mais evidentes dessa continuidade. O próprio Museu de Lisboa incluiu o Convent Square no seu programa de arqueologia sob um título que poderia servir de síntese a todo este artigo: “Um convento no hotel”.

É isto que torna estes seis hotéis particularmente interessantes. Não são apenas hotéis históricos, nem simplesmente hotéis instalados em edifícios antigos. São exemplos de uma questão muito mais profunda da conservação patrimonial: o que fazemos quando descobrimos que a cidade contemporânea foi construída sobre outras cidades?

A resposta de Lisboa tem sido, em alguns destes casos, surpreendentemente inteligente. Em vez de esconder os vestígios para construir um espaço inteiramente novo, decidiu-se preservá-los, integrá-los e, em alguns casos, explicá-los ao público. A hotelaria transformou-se assim, ainda que involuntariamente, numa espécie de nova forma de divulgação histórica.

E há uma diferença fundamental entre colocar uma fotografia antiga de Lisboa num corredor e conservar uma parede romana, uma muralha islâmica, uma cisterna medieval ou um mosaico romano. A primeira coisa é decoração temática. A segunda é património.

É por isso que estes hotéis interessam a um historiador. Porque permitem observar uma cidade que não está apenas nos arquivos, nos museus ou nos monumentos. Está também debaixo dos nossos pés.

Lisboa é, afinal, uma cidade onde se pode tomar o pequeno-almoço junto a uma ferraria quinhentista, atravessar vestígios de uma muralha islâmica, visitar uma cisterna medieval, dormir num antigo convento e, noutro hotel, contemplar vestígios que nos levam até à Lisboa romana e até à Pré-História.

O turista procura frequentemente Lisboa para ver a História.

Mas, em alguns destes hotéis, a História está à sua espera quando fecha a porta do quarto.

E talvez seja essa a forma mais silenciosa, e simultaneamente mais fascinante, de viajar no tempo.

Paulo Freitas do Amaral

Professor, Historiador e Autor