11.10.2025 –
“A ideia de dividir a riqueza acumulada pelos mais ricos por toda a população mundial pode parecer, à primeira vista, uma forma rápida de resolver desigualdades. Mas mesmo usando estimativas globais atuais e assumindo uma divisão igualitária e imediata, os resultados seriam os seguintes:
- Se a riqueza do 1% mais rico fosse distribuída por toda a humanidade, cada pessoa receberia cerca de 26 mil euros.
- Se se repartisse a riqueza dos 10% mais ricos, caberiam aproximadamente 43 mil euros por pessoa.
- Se se dividisse a riqueza dos 20% mais ricos, cada ser humano receberia à volta de 49 mil euros.

Estes montantes são impressionantes em teoria, mas não resolveriam o essencial.
Mesmo num cenário completamente irrealista — em que toda a riqueza seria convertida em dinheiro líquido e distribuída sem perdas de valor — a desigualdade voltaria a surgir pouco tempo depois. Porquê?
Porque a maior parte da riqueza não está guardada em cofres, mas em ativos produtivos: empresas, imóveis, terras agrícolas, tecnologia, infraestruturas ou propriedade intelectual. Se tudo isto fosse vendido ao mesmo tempo, o valor desses ativos colapsaria e grande parte da riqueza desapareceria. Mas mesmo que ignorássemos esse efeito, estaríamos apenas perante uma transferência pontual, e não uma mudança estrutural.

As causas da desigualdade continuariam intactas:
– acesso desigual a educação, saúde, habitação e emprego;
– concentração de capital e poder económico;
– assimetrias fiscais;
– precariedade laboral;
– baixa mobilidade social;
– influência das grandes fortunas sobre a política.
Além disso, quem controla os meios de produção voltaria rapidamente a acumular riqueza e influência. O dinheiro distribui-se por um momento; o poder reorganiza-se logo a seguir. E ao destruir os ativos produtivos para os converter em liquidez, arriscar- se-ia a destruir também salários, emprego e inovação.
Por isso, a desigualdade não se resolve dividindo o que existe hoje, mas mudando as regras que determinam quem acumula, quanto acumula e à custa de quem.
O caminho não é destruir o capitalismo, é regulá-lo e civilizá-lo
Alguns defendem que a única alternativa às desigualdades extremas é acabar com o capitalismo e regressar a modelos comunistas. Mas a história mostra que o capitalismo pode ser profundamente desigual ou relativamente equilibrado — depende das regras, da fiscalidade, da regulação e da força das instituições públicas.
Depois da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, muitos países europeus e até os Estados Unidos reduziram desigualdades com políticas fiscais progressivas, direitos laborais fortes, serviços públicos universais e limitação da concentração económica. O capitalismo não desapareceu — foi domesticado.
Por outro lado, as experiências comunistas clássicas sacrificaram liberdade económica e política, criaram elites partidárias, eliminaram incentivos e produziram novas formas de desigualdade. Na prática, trocaram uns privilegiados por outros e destruíram inovação e dinamismo.
A melhor forma de responder aos defensores dessas vias não é tentar silenciá-los, mas retirar-lhes razão com soluções eficazes. Isso faz-se com:
- fiscalidade justa e progressiva sobre grandes fortunas, heranças e mais-valias;
- combate aos paraísos fiscais e ao planeamento fiscal abusivo;
- regulação de monopólios e posições dominantes;
- salários dignos e melhor repartição do valor criado;
- serviços públicos fortes (saúde, educação, habitação, proteção social);
- mobilidade social real, não apenas teórica;
- transparência e limites ao poder económico sobre a política.
O objetivo não é impedir que as pessoas enriqueçam, mas evitar que a riqueza extrema se transforme em poder absoluto e em desigualdade permanente.
Conclusão
Distribuir fortunas não resolve as desigualdades porque o problema não está apenas no que já foi acumulado — está nas estruturas que permitem acumular sempre mais. A alternativa realista ao capitalismo selvagem não é a revolução comunista, mas um capitalismo regulado, justo e democrático, em que a economia serve as pessoas e não o contrário.
Quando isso acontece, a desigualdade não desaparece por magia, mas deixa de ser um destino inevitável — e deixa também de alimentar fantasias radicais de ruptura total.”
Autor: Avelino Paulo



