“Lesão medular: quando a vida muda, a reabilitação abre novos caminhos”

02.09.2026 –

“O dia 5 de setembro assinala o Dia Internacional da Lesão Medular, uma data que pretende aumentar a consciencialização da sociedade sobre esta condição e para os desafios que enfrentam as pessoas que vivem com uma lesão da medula espinhal. Mais do que uma oportunidade de falar sobre a lesão, este dia convida-nos a olhar para a pessoa para além do diagnóstico e a reconhecer a importância da reabilitação na reconstrução de uma vida com significado, autonomia e participação.

A lesão medular ocorre quando existe uma alteração da medula espinhal, que é a estrutura do sistema nervoso responsável por transmitir informação entre o cérebro e o restante corpo. Pode resultar de situações traumáticas, como acidentes rodoviários, quedas ou lesões desportivas, mas também de causas
não traumáticas, como tumores, infeções ou doenças vasculares. As consequências dependem da localização e da extensão da lesão e podem comprometer, em diferentes graus, o movimento e a sensibilidade, bem como
funções como o controlo da bexiga e do intestino, a sexualidade, a respiração e a regulação da temperatura corporal.

Uma lesão medular não representa apenas uma alteração física. Surge, muitas vezes, de forma inesperada e pode significar uma profunda mudança na vida da pessoa e da sua família. De um momento para o outro, atividades anteriormente realizadas de forma automática, como levantar-se, caminhar, tomar banho, vestir-se ou trabalhar, podem passar a exigir novas estratégias e diferentes formas de as concretizar. Podem também surgir sentimentos de medo, insegurança, perda ou incerteza perante um futuro que deixou de ser previsível.

A lesão medular pode ser classificada de acordo com a localização e a extensão da lesão. Quanto à localização, pode ser cervical, torácica, lombar ou sagrada, sendo que quanto mais elevada for a lesão, maior poderá ser o
impacto sobre as funções motoras e sensitivas. Pode ainda ser completa, quando existe perda total da função motora e sensitiva abaixo do nível da lesão, ou incompleta, quando permanece alguma função, o que significa que podem existir diferentes graus de movimento e sensibilidade. Esta classificação é importante para compreender as necessidades de cada pessoa e orientar o processo de reabilitação.

É neste processo que a reabilitação assume um papel fundamental.
Reabilitar não significa apenas recuperar movimentos. Significa ajudar a pessoa a descobrir e desenvolver as suas capacidades, aprender novas formas de realizar as atividades do quotidiano, prevenir complicações e recuperar o máximo de funcionalidade e independência possível, respeitando os seus objetivos, escolhas e projeto de vida. Neste percurso, o enfermeiro especialista em enfermagem de reabilitação desempenha um papel particularmente relevante. A sua intervenção é individualizada e acompanha a pessoa desde a fase inicial da lesão, ao longo do processo de reabilitação e na preparação para o regresso à comunidade.

Entre os principais contributos desta especialidade destacam-se:
· Promoção da mobilidade e da funcionalidade: através de exercícios e estratégias terapêuticas adaptativas que procuram manter ou melhorar a força, o equilíbrio, a mobilidade e a capacidade para realizar as atividades
quotidianas.
· Prevenção de complicações: através do ensino e implementação de estratégias para prevenir problemas associados à imobilidade, alterações da pele, complicações respiratórias, musculoesqueléticas ou urinárias, entre outras.
· Promoção da autonomia nas atividades de vida diária: ensinando a pessoa a realizar, de forma segura e adaptada às suas capacidades, tarefas como a higiene, o vestir, as transferências e a mobilidade, fazendo uso de diferentes equipamentos (tais como a cadeira de rodas, entre outros).
· Gestão das funções comprometidas: capacitando a pessoa e os seus cuidadores para a gestão de alterações da bexiga e do intestino, da sexualidade, da dor, da espasticidade e de outras consequências que possam
acompanhar a lesão.
· Capacitação da pessoa e da família: porque aprender a viver com uma lesão medular é também aprender a tomar decisões, reconhecer riscos, utilizar recursos e encontrar estratégias para recuperar o controlo possível sobre a própria vida.
· Preparação para o regresso à comunidade: identificando barreiras e facilitadores à participação social, promovendo a adaptação do ambiente e incentivando a retoma das atividades familiares, sociais, profissionais e de lazer.

A reabilitação começa, por isso, muito antes do regresso a casa. E continua depois dele. O verdadeiro objetivo não é apenas que a pessoa consiga realizar determinada tarefa, mas que possa voltar a participar na sua vida, com a maior autonomia possível e de acordo com aquilo que considera importante.

Viver com uma lesão medular pode significar aprender novamente a habitar o próprio corpo, reorganizar rotinas, reconstruir relações e redefinir projetos. É um processo que exige tempo, conhecimento, acompanhamento especializado e, sobretudo, uma abordagem centrada na pessoa e não apenas na sua lesão.

A prevenção da lesão medular passa, em grande medida, pela redução dos fatores de risco associados às suas principais causas. A adoção de comportamentos seguros na estrada, nomeadamente o uso do cinto de
segurança e de sistemas de retenção adequados, a utilização de capacete em motociclos e bicicletas, a prevenção da condução sob o efeito de álcool ou outras substâncias, bem como a adoção de medidas de segurança no trabalho, na prática desportiva e em atividades aquáticas, pode contribuir para evitar muitas lesões traumáticas. Também a prevenção de quedas, particularmente entre as pessoas mais vulneráveis, assume importância. Prevenir é, neste contexto, mais do que evitar um acidente: é proteger a integridade da pessoa e preservar a sua capacidade de viver, participar e manter a sua autonomia.

Assinalar o Dia Internacional da Lesão Medular é, assim, uma oportunidade para lembrar que reabilitar é muito mais do que recuperar funções: é criar possibilidades. É reconhecer capacidades onde, por vezes, apenas se veem limitações; é transformar conhecimento em autonomia e cuidado em capacitação. E é garantir que cada pessoa com lesão medular possa ter, não apenas acesso aos cuidados de saúde de que necessita, mas também a oportunidade de reconstruir o seu caminho, participar na comunidade e viver uma vida com dignidade e significado.”

Inês Abalroado
Enfermeira Especialista em Enfermagem de Reabilitação,
Secretária do Colégio de Enfermagem de Reabilitação da Ordem dos Enfermeiros.