Um naufrágio não tem hora marcada

Atrasos no salvamento marítimo são consequência de rotinas trocadas entre pescadores e meios de salvamento. Estações de socorro do Instituto de Socorros a Náufragos só funcionam das nove da manhã às seis da tarde.

“Havia vezes em que saíamos às três da manhã e regressávamos antes das nove. Saíamos sem estar lá ninguém e entrávamos sem estar lá ninguém. Pensam que o homem do mar só trabalha oito horas e depois vem para terra dormir. Morria tudo à fome se nós trabalhássemos como eles”.

O desabafo é de Francisco. Xico Flores como é conhecido entre os ex-companheiros da faina. Foram mais de 40 anos no mar.

Experiência suficiente para constatar que os atrasos no socorro marítimo não são de agora. A memória recua quase 20 anos à madrugada em que perdeu um irmão e um cunhado, a escassos metros da barra de Aveiro. “À uma da manhã pediram socorro, foram a São Jacinto pedir auxílio aos helicópteros da Força Aérea”.

Mas o comandante da base não autorizou. “Entre as seis e as sete da manhã estavam os corpos a aparecer na praia”. Xico perdeu um irmão e um cunhado num naufrágio sem sobreviventes. Conta à Renascença que teve a sorte de não morrer “porque tinha deixado aquele barco há um mês”.

De norte a sul, 26 estações do Instituto de Socorros a Náufragos (ISN) asseguram as missões de socorro no mar, mas só das nove da manhã às seis da tarde, ou seja, fora do horário habitual das rotinas dos pescadores. À Renascença, fonte da Autoridade Marítima explica que, para lá do horário de expediente, as operações de resgate e salvamento são asseguradas por navios da marinha e meios da Força Aérea.

José Festas, presidente da Associação Pró-Maior Segurança dos Homens do Mar (APMSHM) desde a sua fundação há quase uma década, lembra que as próprias entidades oficiais reconhecem as debilidades do sistema. “O próprio ministro da Defesa sabe que o ISN está um caos”. E fundamenta: “há estações salva-vidas que têm um homem. Depois temos o problema do horário”. José Festas defende que o salvamento de proximidade deve estar disponível 24 horas por dia, “mas as estações do ISN que deviam ter, pelo menos, cinco homens – mas não têm – deviam ter oito para assegurar a rotação de horários, como acontece nos hospitais, como acontece no INEM ou nos bombeiros”.

Acresce outro problema. A estrutura de missão e resgate do ISN está envelhecida. José Festas fala de uma “média de idades muito elevada, próxima dos 50 anos” e muito mal paga. “Estão na cauda da Administração Pública, numa profissão de desgaste rapidíssimo”, precisa.

Naufrágio na Figueira da Foz renova alertas

A experiência recente do naufrágio na Figueira da Foz é mais um sinal da urgência deste problema.

José Festas acusa o ISN de “falta de ética de salvamento”. Em causa a demora, a seu ver, excessiva nas operações de resgate. “O socorro chegou uma a duas horas depois do alerta. O homem que morreu podia ter sido salvo. Os dois sobreviventes estavam salvos por natureza porque estavam a bordo da balsa de emergência”.

Mas quantas mortes seria possível evitar se o salvamento no mar fosse mais rápido? “É muito vago dizer que de 10 ou 12 náufragos poderíamos salvar seis ou cinco. Talvez metade”, admite o presidente da APMSHM.

Já Maria Alcide, presidente da Junta de Freguesia das Caxinas, não tem dúvidas: “se aparecesse o socorro na devida altura, se calhar não havia tanta gente que fica no mar”.

No entanto, a autarca admite que, a pretexto da larga experiência de muitos anos ao mar, há quem facilite “por exemplo não usar o colete salva-vidas”.

Uma falsa questão, para José Festas que reafirma que “o uso do colete é da responsabilidade de cada um… não é obrigatório”. Xico Flores concorda. Para este antigo pescador das Caxinas “estar a trabalhar num barco não é a mesma coisa que estar sentado a uma mesa a escrever. Nós fazemos muito exercício porque temos de virar redes para um lado e redes para o outro. O colete só dificulta”.

Além disso, diz, “a maior parte das mortes não acontece em alto mar. É mesmo junto à costa”.

Mar calmo não dá peixe

E tragédia não tem hora marcada. Dores Arteiro tem banca do peixe no mercado das Caxinas há mais de 30 anos. Como quase todas as mulheres da freguesia, já chorou a morte do marido e de outros familiares que o mar levou. “Dois sobrinhos, tios e padrinho”.

O filho também lá anda. “E quando o mar está vivo, a gente apega-se a todos os santos e mais alguma coisa”. E quando corre a notícia de um acidente, “ainda nem sabemos o nome do barco e já estamos aos gritos, aflitas… quem será, quem não será”.

É uma angústia permanente de quem vive no frágil equilíbrio entre a sobrevivência e uma tragédia muitas vezes anunciada. Nas Caxinas vivem quase 20 mil pessoas. E quase todas vivem daquilo que o mar lhes dá.

Com o Inverno à porta, reaviva-se a memória de tantas histórias sem final feliz. Entra Dezembro e Janeiro. Mar de Inverno. Contra todas as intempéries, os pescadores saem ao mar para a pesca do robalo. “Temos tanto medo que os barcos venham mais até terra apanhar peixe, porque pode vir uma vaga de mar que pode ser fatal”.

Mas a vida da faina é mesmo assim. Enfrenta-se o perigo para ganhar o sustento para a família. E nas Caxinas, ninguém alimenta ilusões: “o mar calmo não dá peixe”.

 

Fonte: rr.sapo.pt