Tribunal obriga Chega a retirar cartazes sobre comunidade cigana

22.12.2025 –

Justiça limita liberdade de expressão para proteger direito à honra e proíbe discriminação racial ou étnica.

O Tribunal Cível de Lisboa determinou esta segunda-feira que o partido Chega tem 24 horas para retirar da via pública os cartazes com a frase “Os ciganos têm de cumprir a lei”, colocados em vários pontos do país. A decisão dá razão às associações de defesa da comunidade cigana que avançaram com uma ação cível contra o líder do partido, André Ventura, processo que deu entrada em tribunal a 10 de novembro.

De acordo com a sentença, a juíza Ana Barão considerou que a mensagem constante nos cartazes é discriminatória, configurando uma afronta ao direito à honra, ao bom nome e à reputação dos queixosos. Citando a Convenção Europeia dos Direitos Humanos, a magistrada sublinhou que a gravidade da frase resulta do facto de ter sido “refletida” e “pensada para causar um específico impacto social relativamente a um grupo social”, não tendo sido proferida no calor de um debate político.

Liberdade de expressão com limites

A sentença sustenta que, neste caso concreto, existe fundamento para restringir a liberdade de expressão, invocando uma “necessidade social imperiosa”, nomeadamente a proibição de discriminação em função da raça ou etnia. Apesar de, em tribunal, ter defendido que a retirada dos cartazes constituiria “um precedente gravíssimo” e poderia significar “o fim da política em Portugal”, André Ventura já havia declarado que acataria a decisão judicial.

Caso o partido não cumpra a ordem no prazo definido, ficará sujeito ao pagamento de 2.500 euros por cada dia de atraso e por cada cartaz que permaneça na via pública, valor que também será aplicado por cada dia e por cada novo cartaz eventualmente colocado no futuro, segundo revelou o Público, que teve acesso à decisão.

Associações pediam sanção agravada

A ação cível foi apresentada por seis pessoas ligadas a associações de defesa dos direitos da comunidade cigana em Portugal, que requeriam a aplicação de uma multa diária de cinco mil euros por cada dia de atraso na remoção dos cartazes ou por materiais de conteúdo idêntico que viessem a ser recolocados.

O advogado Ricardo Sá Fernandes, que representou as associações, classificou a decisão como um contributo para “um país mais justo e decente”, considerando tratar-se de uma “vitória da resistência do povo cigano”.

Investigação do Ministério Público em curso

Os cartazes, colocados no contexto da campanha para as eleições presidenciais, surgiram em vários concelhos, nomeadamente Moita, Montijo e Palmela, e estão também a ser alvo de investigação pelo Ministério Público. Na sequência de diversas denúncias, foi aberto um inquérito no DIAP de Lisboa.

#justiça  #CHEGA  #tribunal

#ciganos

📰 Jornal Mira Online
Fonte: Público / SIC Notícias