Quando o poder escolhe em quem confiar, a liberdade perde

12.04.2026 –

O episódio protagonizado por Ana Abrunhosa e pelo jornalista João Gaspar não é apenas mais um conflito entre uma autarquia e a comunicação social. É um sinal preocupante de algo mais profundo: a crescente fragilidade da relação entre o poder político e o jornalismo livre.

 

 

Retirar “confiança” a um jornalista não é um gesto neutro. Não é um mero desabafo político. É, na prática, um ato com implicações simbólicas e reais — uma tentativa de descredibilizar um profissional perante a opinião pública e, indiretamente, condicionar o exercício da sua função. Num país democrático, a confiança não é um instrumento que os políticos distribuem ou retiram aos jornalistas. O jornalismo não depende da aprovação do poder. Pelo contrário: existe precisamente para o escrutinar.

A crítica à notícia publicada pela Lusa pode — e deve — ser feita, se existirem fundamentos. A exigência de rigor é legítima. Mas há formas e formas de o fazer. Acusar um jornalista de “faltar à verdade” e de cometer uma “falha deontológica grave”, sem que haja uma análise independente ou um contraditório claro, levanta dúvidas sérias sobre a intenção e o impacto dessas declarações.

Mais ainda, quando se invoca uma suposta “agenda política” por parte de um jornalista, entra-se num terreno perigoso. Essa linha de argumentação, frequentemente utilizada para desacreditar a comunicação social, contribui para alimentar a desconfiança generalizada nos media — algo que, a longo prazo, enfraquece a própria democracia.

O gesto de solidariedade das jornalistas presentes — num ato de protesto silencioso mas firme — mostra que, apesar das pressões, há ainda uma consciência coletiva na profissão: a de que hoje é um jornalista visado, amanhã poderá ser outro qualquer.

Este caso não deve ser analisado apenas como um episódio isolado em Coimbra. Deve servir de alerta. Quando o poder político começa a escolher em quem “confia” no jornalismo, está, na verdade, a tentar escolher quem pode ou não fazer perguntas incómodas.

E quando isso acontece, não é apenas um jornalista que perde. Perdemos todos!

Jornal Mira Online