EDITORIAL: “🚗 Estacionar mal também é falta de civismo”

22.08.2026 –

Há imagens que, infelizmente, já não surpreendem. Nesta altura do ano, basta aproximarmo-nos de uma zona balnear para encontrarmos carros estacionados em locais onde não podem estar: em cima de passeios, em acessos pedonais, junto a passadeiras, em zonas destinadas à circulação de emergência ou simplesmente onde a sinalização indica claramente que não é permitido estacionar.

As imagens que acompanham este editorial foram captadas na Praia do Poço da Cruz. Mas poderiam perfeitamente ter sido registadas na Praia da Tocha, na Praia de Mira, na Praia da Vagueira, na Praia da Barra ou em muitas outras praias do país.

Porque o problema não é de uma praia. É de todos nós!

🚫 “É só por cinco minutos”

Há sempre uma justificação.

“É só descarregar as coisas.”

“É só enquanto vou buscar as crianças.”

“É só por cinco minutos.”

“Não há outro lugar.”

O problema é que, quando dezenas de condutores pensam exatamente da mesma forma, aquilo que deveria ser uma exceção transforma-se num verdadeiro caos.

E há uma diferença importante entre não encontrar estacionamento e achar que, por isso, se ganhou o direito de estacionar onde bem se entende.

Não se ganhou.

🚑 E se fosse preciso passar uma ambulância?

Esta é talvez a pergunta que todos deveríamos fazer antes de abandonar o carro num local proibido.

E se, naquele preciso momento, fosse necessário passar uma ambulância? Um carro de bombeiros? Uma viatura policial?

Um veículo mal estacionado pode parecer apenas um incómodo. Mas um acesso bloqueado pode significar segundos ou minutos perdidos numa emergência.

E quando está em causa uma vida, esses segundos podem fazer toda a diferença.

O mesmo acontece com os acessos para pessoas com mobilidade reduzida. Um passeio ocupado por um automóvel pode obrigar uma pessoa em cadeira de rodas, um idoso ou uma família com um carrinho de bebé a circular pela estrada.

Não é apenas uma infração.

É uma falta de consideração pelo outro.

🏖️ A praia é de todos

As praias enchem-se no verão. É normal. É desejável. O turismo e a afluência de visitantes são importantes para as localidades costeiras, para o comércio e para a economia local.

Mas trazer mais pessoas não pode significar trazer também mais comportamentos irresponsáveis.

Quem chega a uma praia tem direito a desfrutar do espaço. Os outros também.

O comerciante precisa de ter acesso ao seu estabelecimento. O residente precisa de entrar em casa. O pescador precisa de chegar ao mar. O bombeiro precisa de conseguir passar. A ambulância precisa de chegar onde é necessária. O peão precisa de poder caminhar em segurança.

Nenhum desses direitos desaparece porque é verão.

⚠️ Falta estacionamento? Procure-se uma solução!

Também é verdade que muitas zonas balneares não estão preparadas para receber, em determinados dias, milhares de pessoas e centenas ou milhares de automóveis.

É uma questão que deve ser discutida pelas autarquias e pelas entidades responsáveis: mais estacionamento, melhor organização, transportes alternativos, sinalização adequada e fiscalização eficaz.

Mas uma coisa não justifica a outra.

A falta de estacionamento não transforma um local proibido num estacionamento permitido.

E a fiscalização não pode ser vista como uma perseguição aos automobilistas. Fiscalizar é garantir que as regras são cumpridas e que os direitos de todos são respeitados.

🤝 O civismo começa onde termina a nossa conveniência

Talvez seja esta a principal reflexão que estas imagens devem deixar.

Não precisamos de grandes gestos para demonstrar civismo. Às vezes, basta estacionar mais longe e caminhar alguns minutos.

Basta não bloquear um passeio.

Basta não ocupar um acesso reservado.

Basta respeitar uma sinalização.

Basta pensar que, do outro lado daquele carro, está outra pessoa que também tem direitos.

As imagens são da Praia do Poço da Cruz. Amanhã poderiam ser da Praia da Tocha, da Praia de Mira, da Praia da Vagueira, da Praia da Barra ou de qualquer outra praia portuguesa.

Porque este não é um problema da Praia do Poço da Cruz.

É um problema de civismo.

E enquanto continuarmos a achar que “é só por cinco minutos”, continuaremos a ter exatamente as mesmas imagens.

Jornal Mira Online