No dia em que se conheceram os dados do aprofundamento da recessão brasileira em 2015, as bolsas e o real reforçaram ganhos. A saída de Dilma Rousseff parece mais perto.
A economia brasileira contraiu 3,8% em 2015, acentuando a pressão naquela que já foi a estrela dos países emergentes, agora em direcção à maior recessão desde que há registos. Há 25 anos que não se via uma queda tão acentuada, a qual chega num momento de desvalorização nas matérias-primas que sustentavam o crescimento do país e de retracção no investimento público.
O facto de este relatório reforçar a pressão que a outrora vigorosa economia brasileira sofre, não significa que os mercados estejam apavorados. Pelo contrário, o principal índice do país, Ibovespa, teve hoje um disparo superior a 5%, o ganho mais elevado a nível mundial, segundo um apanhado da Bloomberg. Nesta semana, uma dezena das 61 companhias da Ibovespa já segue num disparo entre um quarto (Santander Brasil) e 45% (Vale) do seu valor.
Também a moeda brasileira está em recuperação, com ganhos já superiores a 2% face ao dólar, melhor prestação desde Outubro. Algo que, à partida, não joga bem com o comunicado da agência estatal de estatísticas: “O PIB no quarto trimestre sofreu uma contracção de 5,9% comparado com o mesmo período do ano passado. (…) Todos os componentes da procura interna revelam queda”, indica o IBGE, citado pelo Financial Times.
Entre as companhias que mais ganham em bolsa, a Petrobras, envolvida no escândalo “Lava-Jato”, segue num ‘rally’ que desde o arranque de segunda-feira já lhe deu mais de 30% de ganhos, algo inédito neste século. O bom desempenho no mercado accionista leva a que, esta semana, apenas cinco cotadas estejam no lado das perdas em São Paulo. Ainda assim, há que destacar a Embraer e a Oi. Enquanto a operadora vive a ressaca da notícia do desinteresse do milionário russo que pretendia fazer uma fusão com a TIM, a fabricante de aeronaves, que hoje tombou 14%, sofre com a redução da previsão de venda de aviões e com a revelação dos resultados no quarto trimestre. Ambas têm perdas semanais acima de 10%.
Para este aparente paradoxo entre optimismo no mercado e pessimismo no Tesouro de Brasília contribui a perspectiva de que Dilma Rousseff esteja mais próxima da porta de saída. “Os ‘traders’ estão a apostar na possibilidade de que uma alteração no Governo aconteça mais cedo que tarde”, diz Luciano Rostagno, do Banco Mizuho do Brasil, de São Paulo. À Bloomberg, explica que “se houver alguma notícia chocante, os protestos contra o Governo podem aumentar, reforçando as hipóteses de um ‘impeachment'”.
A palavra anglo-saxónica significa o já muito falado afastamento da “presidenta”, na sequência dos escândalos de corrupção vertidos no “Lava-Jato”. A força que a bolsa e a moeda vivem segue-se, segundo a agência, à notícia na imprensa brasileira de que Delcidio Amaral, antigo presidente do Senado, detido em Novembro, revelou dados sobre a ligação de Dilma ao escândalo de corrupção.
Para os investidores, o recrudescimento da recessão e a associação da sucessora de Lula da Silva na liderança do PT e do Governo, podendo levar ao ‘impeachment’, abrem a porta para que um dos principais motores dos emergentes consiga dar o pontapé de saída para o seu relançamento e voltar a ser chamada como a mais vigorosa economia da América Latina.




