Cavaco prestes a revelar solução governativa

Presidente deverá anunciar esta semana a sua solução governativa. Passos rejeita gestão e esquerda exige indigitação de Costa.

Está iminente a comunicação do Presidente da República ao país com a solução para o fim da crise política aberta com o derrube de Passos Coelho. Da direita à esquerda, todos esperam que entre hoje e amanhã ou, no máximo, entre quinta e sexta-feira Cavaco anuncie se indigita António Costa ou mantém Passos em gestão, possibilidade considerada remota.

O Presidente ouviu nos últimos quinze dias 31 entidades e um conselheiro de Estado garantiu ao Económico que Cavaco não vai reunir o Conselho de Estado, nem promover mais audições. Por isso, a convicção no PSD e no PS na passada sexta-feira – quando o Presidente acabou de ouvir os partidos – era que entre hoje e amanhã o chefe de Estado anuncia a sua decisão. Os partidos excluem a quarta-feira porque nesse dia assinalam-se os 40 anos sobre o 25 de Novembro – fim do extremismo comunistas e do PREC – e acreditam que Cavaco não fará a comunicação nesta data.

Durante as audições, em que poucas personalidades foram frontalmente contra um Governo PS apoiado pelo PCP e BE, tendo apenas mostrado reservas e pedido garantias, Cavaco não deu sinais do que iria fazer. Mas fez soar os alarmes para o cenário de governo em gestão quando lembrou que ele próprio esteve nessas condições, em 1987, durante cinco meses.

No entanto, convicção de alguns conselheiros do Presidente ouvidos pelo Económico é de que o chefe de Estado acabará – mesmo a contragosto – por dar posse ao líder do PS, deixando passar os acordos feitos com o PCP, BE e PEV, que a Direita diz serem “frágeis”. O próprio Passos voltou na sexta-feira a avisar que não quer ficar em gestão durante muito tempo. Numa entrevista à RTP, deixou claro que “é um mau princípio pensar” que um governo em gestão é uma boa solução e avisou que cabe a Costa apresentar uma solução de Governo “melhorada”.

Apesar de a indigitação de Costa como primeiro-ministro ser a solução quase dado como certa até mesmo na Direita, ainda há alguns deputados do PSD e CDS que falam na possibilidade de Cavaco optar por um governo de iniciativa presidencial, com elementos do PS e PSD até que se possa marcar eleições, em Abril de 2016. As elites dos dois partidos, contudo, não acreditam nesta solução. Passos, por exemplo, na entrevista à RTP, já surgia com uma narrativa mais própria de um líder da oposição e os dirigentes social democratas estão convencidos que terão “pelo menos um ano” de oposição. “O tempo que durará o estado de graça de Costa”, dizem ao económico. No Largo do Rato também já está tudo a postos para a subida ao poder e Costa até já tem quase fechado o elenco governamental.

Cavaco avisou a esquerda que a solução de governo tem de ser consistente, duradoura e garantir o cumprimento das obrigações de Portugal na zona euro. O facto de os acordos firmados não darem garantias nestas matérias tem levantado dúvidas sobre a posição do Presidente. Mas o politólogo António Costa Pinto entende que, estando no final de mandato (termina em Março de 2016), Cavaco não quererá ficar com “o ónus da responsabilidade”, o que poderia acontecer se não indigitasse o segundo partido mais votado. Ao dar posse a Costa – e depois de ter mostrado tantas reservas e feito avisos sobre os perigos para o país -, o Presidente desvincula-se desta responsabilidades e passa o ónus para o PS e para a esquerda. E, do outro lado, na oposição, estarão PSD e CDS a travar um duro combate político contra o Governo PS, tentando, numa estratégia de guerrilha dia-a-dia, pôr a nu todas as fragilidades e contradições entre o PS e os partidos à sua esquerda. O que acontece sobretudo em matéria europeia e orçamental. Aliás, na entrevista de sexta-feira, Passos já antevê que Costa vai precisar do apoio do PSD em certas matérias. Quando isso acontecer, avisou o líder social-democrata, “Costa deve demitir-se”.

Fonte: economico