25.03.2025 –
“O mito da natureza como entidade pura e perfeita teve início provavelmente com os nossos primeiros antepassados.
Sob a abóbada estrelada e perante a dureza de cada dia, a Mãe Natureza ascendeu rapidamente ao divino.
Depois dos contos e símbolos transmitidos de geração em geração ela foi celebrada mais tarde em prosa e em verso por variadíssimos escritores.
A historiadora Anna Brownell Jameson (1794 – 1860) condensou esta ideia na célebre frase
“A natureza e a verdade são uma só, imutável e inseparável como a beleza e o amor”.
Mas será mesmo assim?
A honestidade foi sempre a única garantia de sobrevivência?
Ou será que a evolução das espécies é mais complexa e mais interessante?
Estas e outras indagações são habilmente respondidas pelo académico Lixing Sun no livro de divulgação científica intitulado “Os mentirosos da natureza e a natureza dos mentirosos”.
O professor do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade de Central Washington ilustra a sua tese com exemplos concretos destes fascinantes “aldrabões” do mundo biológico que vão desde os vírus até aos grandes primatas.
Há estratégias de dissimulação sofisticadas de variadas espécies.
Olhemos com atenção para as trufas. Absolutamente inocentes, certo? Na verdade, até elas fazem batota: emitem um esteroide semelhante à feromona dos javalis. Assim que a fêmea detecta este aroma ela escava ansiosamente em busca do macho que, afinal, não está lá. O resultado desanimador para a “apaixonada” javali é por outro lado excelente para as trufas: assim se espalham os seus esporos. A comunicação também é muito útil no reino animal e veículo para a desinformação que, portanto, não é exclusiva do Homo sapiens.
O leitor certamente sabe que muitos animais (incluindo o cão do seu vizinho) avisam recorrendo a variados sons que um determinado predador ou invasor está perto. Mas nem sempre a mensagem é assim tão bem-intencionada. O corvo usa a vocalização de perigo para literalmente enganar os companheiros e concorrentes que assim se afastam assustados.
Os macacos, ainda mais sofisticados, escondem objectos dos seus companheiros atrás das costas e ocultam suas intenções de “namoro” do macho dominante. Assim evitam lutas desnecessárias com o mais forte do grupo.
A obra está, portanto, repleta de exemplos como estes que provam que afinal a dissimulação é uma estratégia comum no mundo vivo.
Vencedor em 2024 do prémio PROSE da Associação de Editores Americanos, Lixing Sun não defende o uso de mentiras intencionalmente maliciosas.
O que o autor gostaria de realçar é que o engano na biologia representa um poderoso catalisador de diversidade, sofisticação e até de beleza.
Assim, se entendermos e reconhecermos os “mentirosos” da natureza no jardim da nossa cidade ou no campo da nossa aldeia ficamos, paradoxalmente, mais perto da verdade.”
Luís Monteiro
Médico e Comunicador de Ciência