02.12.2025 –
Uma nova investigação com participação de Sérgio Timóteo, investigador do Centro de Ecologia Funcional da FCTUC, demonstra que o conhecimento ecológico acumulado por comunidades locais pode ser decisivo para a gestão sustentável da pesca do pirarucu (Arapaima gigas), o maior peixe de água doce do mundo.

Publicado no Journal of Applied Ecology, o estudo revela que as práticas de cogestão adotadas pelas comunidades da Bacia do rio Juruá, na Amazónia Ocidental brasileira, não só recuperaram populações desta espécie emblemática — outrora à beira da extinção — como também promoveram o bem-estar das populações locais e a biodiversidade da região.

📌 Conhecimento transmitido por gerações
A escolha dos lagos a proteger é feita pelos próprios pescadores, baseados em conhecimentos transmitidos ao longo de gerações sobre as dinâmicas do rio e o comportamento dos peixes. Este saber tradicional é combinado com quotas anuais definidas por políticas regulatórias, numa estratégia que tem demonstrado eficácia na prevenção da pesca ilegal e na preservação do ecossistema.
No entanto, tanto as comunidades como os gestores regionais procuram saber se estas decisões são, de facto, as melhores e se podem ser replicadas noutras regiões da Amazónia — um desafio, dada a dificuldade em realizar experiências de grande escala em áreas remotas.

📊 Modelos que revelam padrões surpreendentes
Para apoiar as comunidades, a equipa criou seis cenários alternativos de cogestão com base em dados recolhidos entre 2011 e 2022 em 31 lagos — 13 protegidos e 19 não protegidos. Com estes dados, os investigadores construíram uma rede espacial e um modelo populacional que simula o número de adultos de pirarucu ao longo do tempo, considerando crescimento, capacidade de carga e diferentes níveis de pesca ilegal.
Os resultados foram claros:
Embora a estratégia baseada na capacidade de carga fosse ligeiramente mais eficiente, o modelo atual de cogestão — decidido pelas comunidades — apresentou resultados muito próximos, reforçando a fiabilidade do conhecimento local.”
Os lagos protegidos revelaram-se verdadeiras fontes de reposição para o ecossistema fluvial, ajudando a estabilizar populações e a reduzir o impacto da sobre-exploração.
🌎 Um modelo aplicável a outros ecossistemas
Para além da Amazónia, o estudo propõe um modelo que pode ser adaptado a diferentes contextos sociais e ecológicos, oferecendo um guia para integrar saberes tradicionais com modelação científica moderna.
Como destaca Sérgio Timóteo, este é um exemplo claro de “tecnologia social complexa” construída ao longo de milénios de interação entre pessoas e natureza, e que continua a revelar-se essencial para a conservação ambiental.
O artigo científico “Local knowledge enhances the sustainability of interconnected fisheries. Journal of Applied Ecology” está disponível para consulta em: https://besjournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/1365-2664.70213
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📌 Fonte: Universidade de Coimbra




