Raul Almeida e a situação da Lusiaves: “A decisão não está tomada!”

A noite de quinta-feira foi de extrema importância para a cidadania em Mira: o Centro Paroquial do Seixo esteve bem composto para que o debate proposto pela Câmara Municipal sobre o assunto do momento (a Lusiaves) pudesse acontecer.

Ao contrário do que muitos prognosticavam, o debate correu de forma serena e elegante, sem que cada um deixasse de esgrimir os seus argumentos com a ênfase que considerasse necessária.

Antes de mais, falou o Presidente da Câmara Municipal de Mira, Raul Almeida, que esteve ladeado pelo Presidente da JF do Seixo, Tiago Cruz, que foi o moderador da sessão, para além de Sérgio Costa, biólogo e professor universitário, a quem a CMM solicitou um Estudo de Impacte Ambiental.

Raul Almeida deixou a garantia de que “depois de todos os estudos serem apresentados e analisados, será a Assembleia Municipal quem decidirá” sobre a construção (ou não) da referida unidade fabril no Concelho de Mira. Mais, o Presidente da Câmara de Mira garantiu que o próprio executivo camarário “fez o trabalho de casa, procurando ouvir a palavra das pessoas”.

De seguida, foi a vez de Nuno Maurício, administrador do grupo Lusiaves, fazer uma extensa e detalhada apresentação sobre o grupo “que envolve mais de 20 empresas, dá trabalho a mais de 3.500 pessoas e está em 4 continentes, sem nunca esquecer os temas ambientais” numa clara alusão às maiores preocupações dos mirenses, neste momento de intenso debate.

Presentes “em 24 Concelhos com 41 unidades”, o grupo “contribuiu para o país, em 2017, com quase 140 milhões de euros em impostos”, afirmou o administrador que fez questão (sempre) de salientar que o grupo está presente em toda a cadeia de valor, pois queremos controlar todo o processo, assumindo as nossas responsabilidades… não responsabilizando ninguém por algo que é da nossa competência”. E, falando em números, Nuno Maurício afirmou, também que “criaremos 350 postos de trabalho e estimamos um impacto fiscal de quase 2 milhões de euros o que daria, por exemplo, para fazer-se 7 requalificações no centro da vila, 7 poslos educativos na Praia de Mira, 7 zonas Industriais, dentre outros…” para rematar afirmando que “não escolhemos este Concelho por acaso: escolhemos porque existem aqui pessoas que podem ser uma mais-valia a nível de empregabilidade! Podemos afirmar que com este empreendimento é muito fácil batermos recordes de emprego efectivo, aqui!”.

Depois de serem mostrados vídeos de testemunhos de importantes personalidades que têm ou tiveram uma relação próxima com todo o grupo Lusiaves, foi a vez de ser apresentado Nuno Brito, um antigo Secretário de Estado do governo de Passos Coelho, para “de viva voz, testemunhar perante as pessoas”.

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Este centrou sua explanação na “importância que tem um investimento desta envergadura”, procurando tranquilizar aos mais céticos, de que “a Lusiaves é dado, tanto cá como lá fora, como exemplo de boas práticas”.

A seguir veio a parte mais técnica onde foram dados alguns exemplos no que se refere à questão ambiental: “ a criação de uma faixa arbórea na zona do empreendimento, a implementação de um plano de gestão florestal, a manutenção e valorização das linhas d´água” foram citadas, dentre outras, como o grupo toda a problemática ambiental, “serm nunca descurar este ponto”.

Sérgio Costa, por sua vez, afirmou ter “consultado mais de 30 entidades no percurso do Estudo de Impacte Ambiental” afirmando “só por uma vez” ter detetado queixa sobre os maus cheiros que possam surgir de um empreendimento deste quilate.

Chegou, então, o momento das intervenções de quem quis explanar as suas divergências e preocupações. Elas existiram, como era natural, mas ficou sempre o reconhecimento pelo facto da Lusiaves ter dado a cara e a Câmara Municipal ter realizado tal debate.

Sempre enfáticos, os intervenientes não deixaram de questionar “ o efectivo número de empregos que serão gerados” e se isto justifica todas as outras preocupações adjacentes ao projeto.

Muitos centraram suas dúvidas em temas como os resíduos, o tráfego ou os recursos hídricos. Foi, também, discutido o facto de existirem 3 estudos feitos fora de Portugal no que se refere ao impacto na saúde pública em casos como a asma ou problemas pulmonares, ao que foi respondido que “o sector da produção agrícola é um dos mais vigiados, dentre todos os existentes”.

Surgiu, inclusive, uma proposta vinda da parte de Francisco Reigota, Presidente da JF da Praia de Mira, para que aconteça um referendo sobre o assunto uma vez que, para o autarca, “o atual executivo camarário não tem autoridade para decidir, uma vez que o assunto não esteve no programa eleitoral do PSD”, ao que Raul Almeida ripostou com um “não é verdade”, tendo mostrado um folheto da campanha eleitoral de um ano atrás e no qual já estava referenciada a possibilidade de vir a acontecer este projeto. É importante realçar que outras vozes vieram a subscrever esta proposta no sentido de se dar ao povo a possibilidade de decidir se aceita, ou não, a implantação da unidade no Concelho.

Por fim, falou o fundador e presidente do grupo Lusiaves, António Gaspar, que deixou, implicitamente, algum desconforto com o que tem acontecido: “Gostamos de estar em locais onde as pessoas nos aceitem e queiram que estejamos… estamos aqui, de boa-fé!”. De seguida, rematou com uma frase emblemática: “Em 32 anos de existência da Lusiaves, não há registo algum de doenças dos nossos trabalhadores… sobretudo daqueles que trabalham em permanência, durante 8 horas por dia nas nossas instalações!”

Jornal Mira Online