O “homem do rádio”

Chama-se João Colaço, tem 88 anos, nasceu e viveu quase sempre na pacata localidade de Portomar (exceto quando esteve a estudar em Lisboa). Paixões? A vida, a família e… os rádios!

 

João Colaço é uma figura paternal, admirado por todos os que o rodeiam nestas quase nove décadas de existência. Quem já passou pelo Parque de Campismo da Praia de Mira e não o conhece? Poucos, muito poucos!

Ali, foi a figura maior do lugar ao longo de muitos anos (desde 1976 até 2002), tendo feito “de tudo um pouco”, assume. Nada, no seu tempo, era deixado ao acaso porque onde havia problemas, lá estava ele… mas, também estava, tantas vezes, nos lugares onde eles também poderiam acontecer!

João Colaço começou a vida laboral como “alfaiate e barbeiro”, a trabalhar com o pai. Como todo jovem, também tinha (ou, pensava que teria) algum vício, e o seu era a caça… mas, um infortúnio encerrou a sua carreira de caçador, logo no primeiro (e único) tiro que deu na vida: o tiro que teria como direção um animal, acabou acertando-lhe o próprio olho, por um defeito da espingarda. Como consequência, o jovem franzino que “talvez acabasse por ser um caçador” acabou por… perder a visão!

Um ano, então, foi o tempo necessário para o jovem João Colaço sair novamente de casa. Com um olho artificial e o orgulho ferido, foram necessárias muitas investidas dos amigos para que ele “conseguisse criar coragem e ir para a rua”.

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“NASCI PARA CONSERTAR E CRIAR RÁDIOS”

Cinco anos a “a estudar rádio”, em Lisboa, no Instituto Superior Técnico, transformaram aquele rapaz que já fora alfaiate e barbeiro, naquilo que ele sempre soube que queria ser: reparador de rádios!

“Podia ter lá ficado, o meu professor queria que eu ali continuasse para ajudá-lo a ensinar, uma vez que já o fazia a alguns colegas meus… mas, eu disse que não podia, pois era recém-casado e a mulher cá estava e eu ali, tão longe!” afirma sorridente, talvez a pensar na esposa – Dona Lucília – que andava por ali, na lida da casa, no momento da reportagem.

Desde 1953 “casado e muito bem casado”, João Colaço sempre encontrou na esposa, nas duas filhas e – há dezoito anos – na neta, que acaba de entrar na faculdade em Coimbra, o porto de abrigo para que pudesse trabalhar na sua paixão – quase sempre a noite – uma vez que, durante o dia, os afazeres eram outros, fossem onde fossem.

Mas, a verdadeira libertação – pode-se assim dizer – foi após a sua reforma no Parque de Campismo. Daí para a frente, aquele homem que já consertara rádios de todos os tipos, vindo de todos os quadrantes, teve – e tem – tempo mais que suficiente para dedicar-se às reparações que “estão sempre a chegar” e às restaurações que vai fazendo por conta própria. “Aquele rádio ali” – aponta – “chegou praticamente só com algumas peças em condições. O senhor pode não acreditar, mas ficou tudo perfeito, incluindo a caixa que restaurei ponto por ponto…”.

 

NA TV… A FALAR SOBRE RÁDIOS

“Confesso que nasci mesmo para isto… sempre fui muito atrevido nesta área, interessado e fui me aperfeiçoando ao longo do tempo” – diz este homem muito afável, um pouco tímido, mas não tanto que não pudesse aparecer na TV.

“Estive na RTP e na TVI, no programa da Fátima Lopes, contando minha história, meu percurso de vida e, naturalmente, sobre o trabalho que vou desenvolvendo ao longo de décadas. No dia seguinte ao programa da Fátima Lopes, tinha uma lista imensa de pessoas que tinham rádios para consertar e queriam que eu fizesse esses trabalhos…”

 

ARTESÃO A SÉRIO

Se o leitor é daqueles que acreditam que os artesãos são só aqueles que fazem pulseiras ou bolsas, é porque ainda não teve a oportunidade de ver os trabalhos feitos por homens como João Colaço. O seu museu, dentro da sua própria casa e onde é a sua oficina, contém cerca de 200 aparelhos radiofónicos de todos os tamanhos e feitios e com qualidade de som que causa inveja a muitos aparelhos bem mais recentes!

Com um período médio de um mês dedicado exclusivamente a cada rádio, João Colaçoum toque muito próprio ao trabalho que faz orgulhando-se de, “até hoje, nunca ter tido uma devolução por algo não ter corrido bem”. Convenhamos, depois de tantos e tantos anos, manter uma taxa de 100% de satisfação dos clientes, não é algo que esteja ao alcance de muitos…

 

HOMEM CASEIRO

Por fim, João Colaço define-se como um “homem caseirinho” no que é amplamente corroborado pela Dona Lucília que, no entanto, chegou quase no fim da entrevista. “É verdade, ele diz-me sempre: ”vai, mulher, vai passear, não te prendas por minha causa… e eu vou (risos) saio com minhas filhas e com a neta, muitas vezes, e o João por aqui fica com os seus rádios!”.

João Colaço afirma categoricamente que “no fundo, o que eu gosto mesmo, é de servir as pessoas… e, neste trabalho que tanto prazer me dá, esta é uma forma de ajudá-las. Elas enviam-me aparelhos que estão, aparentemente, sem utilidade, sem funcionar… e, no fim, recebem de volta um trabalho feito com muito amor, com arte, com dedicação… no fim das coisas, é disto que se trata: de entregar-lhes algo que tem um valor sentimental enorme!”

E, deve ser por isso que ele nunca para. Como o próprio afirma sempre a sorrir, “parar é morrer e eu ainda quero estar por cá mais uns anitos”…

 

Jornal Mira Online

 

Nota da Redação: A foto de capa desta reportagem traz o sr. João Colaço junto ao rádio que construiu na sua formação e com o qual terminou o seu curso. Funciona plenamente, como funcionava nos anos 50 do século passado…